26/02/2008

Rubber Soul . The Beatles

O albúm que marca o ponto de viragem, tanto técnico como tématico. É aqui que se abrem novos horizontes e se acaba definitivamente com a ambiência teeny-pop. O estúdio deixa de ser um ponto de paragem e passa a ser laboratório de alquimia, onde novos sons iriam aparecer e toda uma nova maturidade iria despontar.









Rubber Soul, 1965










Já cansados da "Mania" e a ficar impacientes face às suas imposições castrantes, os Beatles decidiram fazer uma pausa mais prolongada. O encantamento inicial desvanecia e agora, com a aprendizagem, todo um novo universo lhes passava em frente dos olhos. Muito por culpa de Dylan, que haviam conhecido na América, começaram agora a virar as suas composições para si mesmos, para a dimensão séria das suas relações e até para a dispersão que sentiam nas suas mentes.

O machismo invertido de "Drive My Car", com o seu jazz piano do refrão, e o intimisto exótico de "Norwegian Wood" alertavam-nos de imediato para todas estas mudanças. A cítara de George em "Norwegian Wood" é o ingrediente essencial de uma composição marcada pela ambiguidade, e pelo relato intimista de um "affair" de sentido único. A presença feminina seria, no entanto, irradiada em "Nowhere Man", com a suas intricadas harmonias vocais e o seu poder de fazer, ao mesmo tempo, uma auto-análise e uma crítica à apatia quotidana de uma sociedade que só agora começava a irradiar inovação.
"Think for Yourself", a melhor composição de George até à altura, continua na mesma onda de pensamento, criticado quem não tem auto crítica e quem segue as pisadas de outrém sem questiona, contribuindo para o vazio que "Nowhere Man" já tinha referido. De nota a lead guitar, que acompanha eficientemente a narrativa.
"The Word" é, talvez, a única música confessamente composta sob o efeito de marijuana. O amor salvar-te-à, o meu piano psicadélico far-te-à dançar, e somos extremamente positivos na nossa visão (mocada) do mundo. Amén a isso.
No que se refere a músicas românticas, temos duas peças muito diferentes, ambas marcadas por um estilo completamente diferente do que haviamos visto até aí. "Michelle" é de Paul, e portanto é doce, romântica e apaixonada, com elementos dissimuladamente franceses a apimentar ambiência. "Girl" é de John, em down-tempo, densa e dolorosa, mas nem por isso é menos apaixonada. De notar a panóplia de elementos que a compõem, e que a tornam riquíssima e um dos melhores temas do albúm.
Mas esse título estaria sempre e inevitavelmente reservado para "In My Life", que pessoalmente, considero umas das mais bonitas músicas jamais feitas. Não há ninguém que fique indiferente ao tema, e que com ele não se identifique, e não há ninguém que fique indiferente à sua doçura. A sua aparente simplicidade é contagiante, e apaixonante é a forma com nos transmite o calor da mensagem, que faz todo o sentido, em todas as alturas do mundo, seja para quem for.

Rubber Soul é intimista do início ao fim, e pela primeira vez se mostra a verdadeira identidade destes 4 rapazes, que aqui apelam, ainda com toda a energia, a outras dimensões do que vai dentro de cada um de nós, reflexo do que começava a tornar-se importante dentro deles. Uma obra verdadeiramente universal, como foram todas, daqui em diante.

16/02/2008

Sgt. Pepper´s Lonely Hearts Club Band . The Beatles

Descrito uma vez como "um momento decisivo na história da civilização ocidental", este albúm é, simplesmente, o ponto mais alto de um período de experimentação que tinha começado com Rubber Soul. É o cúmulo brilhante das novas tendências e uma revolução na maneira de ouvir música. Eis o que muitos consideram o mais influente albúm de sempre.








Sgt. Pepper´s Lonely Heart Club Band, 1967








Estamos no âmago da época psicadélica, da revolução cultural, onde novas ondas de pensamento e uma forte propensão à experimentação estavam no ar. O movimento hippie começava aganhar forma e a juventude do baby boom começava, finalmente, a mostrar a sua garra.
Entretanto a maneira de fazer música começava a mudar aos poucos, em grande medida pela influência de Bob Dylan, das suas letras e temas introspectivos e mordazes e de um constante brotar de novas bandas que surgiam prontas a inovar.

Entretanto, os Beatles, que haviam abandonado os espetáculos ao vivo para dedicarem mais atenção à qualidade artística da sua música, demoravam a lançar novo material. Revolver já havia saído há muito tempo, e a especulação era muita acerca de um possível esgotamento criativo ou até mesmo do fim da banda. A fasquia estava alta, especialmente depois do lançamento do eclético "Pet Sounds" dos Beach Boys, que em muito havia de influenciar a instrumentação do novo albúm. No entanto, na altura, ninguém tinha noção do que iria sair dos estúdios de Abbey Road.

A capa, eminentemente psicadélica, cheia de vivacidade e cor, funciona como que um "mood-setter" para um conceito de albúm que, apesar de não se confirmar plenamente, não deixa de ser convidativo. A introdução, homónima do albúm, é um autêntico prólogo ao vivo, ritmado e intenso, que apresenta Sgt.Pepper e a sua banda. Este dá seguimento ao "act" de Billy Shears, que é Ringo cantando "With a Little Help From My Friends", um lamento optimista face às agruras da vida e aos julgamentos exteriores, devidamente acompanhado pelas vozes em coro dos seus amigos. Até ao Reprise, não vamos ter mais qualquer menção ao conceito que parecia seguir forte até aqui e que surgiu, lembre-se, com o objectivo de levar um concerto ao vivo à casa de cada um.

Facilmente se esquece o desmoronar do conceito, com "Lucy in the Sky With Diamonds", um hino à psychadelia onde somos convidados a viajar por um estranho mundo, repleto de cores, texturas e vibrações. Composta maioritariamente por John Lennon e baseada num desenho do filho Julian, esta é uma música que verdadeiramente nos faz viajar e nos pinta quadros coloridos na mente, especialmente nas partes em que a guitarra acompanha, nota a nota, a voz (acelerada) de John. A instrumentação também é de particular nota, prestem atenção à variedade de sons que conseguem distinguir.

"Getting Better", de Lennon e Mccartney, é outro hino ao optimismo face à adversidade. John tem aqui, para tipicamente sua, mordaz e sarcástica linha "It can´t get no worse", uma nota autobiográfica depois do segundo refrão, onde admite ter sido abusivo para as mulheres da sua vida. Interessante a forma como, de repente, nessa parte, toda a música fica mais escura e o tom menos colorido. Excelente.

"Fixing a Hole" trata de dispersão mental e dúvida existêncial, procurando-se um rumo, algo não derivativo, para se obter auto definição. Cheia de variações melódicas que acompanham a narrativa, e com uma excelente utilização do cravo (harpsichord), esta é uma música revolucionária não só pela musicalidade mas como pelo tema abordado.

"She´s Leaving Home" é uma magnífica composição harmónica de Paul Mccartney sobre a fuga de casa de uma adolescente a quem se havia dado tudo, menos liberdade. Particularmente focada na reacção dos pais, especialmente nos lamentos do refrão, este é outro tema que foge completamente de qualquer conceito mainstream daquele tempo. Brilhante.

Mas mesmo revolucionária é "For the Benefit of Mr.Kite", totalmente inspirada num poster de circo do século XIX, encontrado por Lennon numa loja de velharias. Virtualmente TODA a letra foi directamente extraída do poster. A criação de uma ambiência adequada ao majestoso caos circense é conseguida com o recurso a um sem número de elementos impensáveis, mesmo na altura. Gravações revertidas, harmónicas, cravo, sons de feiras populares, tudo se conjuga de forma magnífica para pintar um verdadeiro quadro de som, no qual somos facilmente imersos ao longo de dois minutos e meio de pura magia. Assim acaba do lado A.

"Within You and Without You" é a melhor música de influência indiana de George (do conjunto de cerca de 3 ou 4 que possuem tais elementos). Sensual e com uma linda letra, juntou de forma brilhante dois mundos totalmente diferentes e opostos.

"When I´m Sixty-Four" não é exactamente uma música do seu tempo uma vez que tinha escrita por Paul já há muito tempo, mas é doce e humilde como poucas. A prova de que pouca pretensão e simplicidade também fazem uma muito boa música. Atenção à instrumentação.

Mais complexa e brilhantemente produzida é "Lovely Rita", sobre uma polícia de trânsito americana que (diz-se...) fascinou Paul. Apesar de não ser particular fã da letra, gosto imenso da orquestração vocal, da fantástica bateria e da parte final, onde parecem todos estar sob o efeito de drogas alucinogénicas. Tema riquíssimo.

"Good Morning" não é exactamente uma favorita, isto porque me parece que o uso de imensos complementos sonoros e efeitos a torna confusa e pouco melódica. Não deixa no entanto de ser uma música interessante, onde a utilização de sons de animais é inspiração directa de "Pet Sounds".

O Reprise de Sgt. Peppers segue a mesma estrutura da introdução mas em tom de despedida e com uma sonoridade mais pesada. As últimas palmas introduzem a que é, discutivelmente, uma das melhores músicas de sempre e um verdadeiro marco na história da pop. "A Day in the Life" é uma fusão de duas músicas, uma de John, outra de Paul, que se complementam na sua diferença. Começa-se com a voz arrepiante de John a descrever eventos que havia visto no jornal, complementanda por magníficos drum fills de Ringo. Os pequenos crescendos culminam depois num crescendo orquestral que, após o climax, introduz a parte de Paul, uma refrescante descrição quotidiana que termina numa queda num sonho, onde está John de novo a descrever-nos eventos e desejos. A música termina, enfim, noutro clímax orquestral, desta vez seguido de um épico acorde em 3 pianos diferentes, o fim mais famoso de qualquer albúm na história da música. De cortar a respiração.

Pode dizer-se que, naquele mês de Junho de 1967, não saiu mais do que um fruto do seu tempo e da mentalidade das suas gentes. Desde a capa, até ao título, passado pelo (falhado) formato conceptual, não há representação mais perfeita do que foram aqueles anos. Este é, no entanto, uma obra que ultrapassa o seu tempo, que para além de dele se ter alimentado, o alimentou... pelo espírito, pela novidade dos temas e pela inovação nas sonoridades.
Para além de ter iniciado oficialmente o "Verão do Amor", Sgt.Pepper´s abriu portas que todos hoje damos como garantidas e banais e mostrou-nos o que nós próprios conseguiríamos fazer. Phil Collins uma vez disse " abriu a porta de um outro quarto, e mostrou que também ali se podia brincar", e se eles brincaram, todo o mundo o podia fazer... e fez.

13/02/2008

Abbey Road . The Beatles

Há histórias que são melhor contadas a partir do fim, e daí sem nenhuma rota definida, ao gosto do contador. Pois bem, começaremos então a história da maior banda de sempre, os Beatles, pelo fim.








Abbey Road, 1969











Em 1969 a banda desmoronava-se lentamente. Depois da desagregação colectiva no White Album e das frustrantes sessões de Let It Be, toda a gente esperava pelo canto do cisne. Ele aconteceu, mas não sob a forma de comunicado ou conferência de imprensa, mas sim de uma obra magistral.

Esta é já uma época rica em frutos da revolução musical. Os Led Zeppelin despontam, os Doors fascinam e Jimi Hendrix brilha, e é nesse contexto que encontramos Paul Mccartney e John Lennon mais brilhantes que nunca, um George Harrison a confirmar o seu brilhantismo e um Ringo virtuoso, que compôs aqui, também, a sua melhor obra na banda.

O Lado A introduz-se com "Come Together", faixa usada por Timothy Leary na sua campanha para governador da Califórnia. Um groove pleno de carisma e sedução onde o baixo nos puxa irremediavelmente para o universo de John. Uma das minhas baterias favoritas em toda a obra do grupo.

O show continua com o portentoso "Something", de George Harrison, a música que Frank Sinatra um dia descreveu como "my favourite Lennon/Mccartney". Apaixonada mas relutante, Something é a prova final do brilhantismo musical de Harrison, que criou aqui, na minha opinião, a mais deliciosa canção de amor dos anos 60. A ter em especial atenção os magníficos arranjos de cordas que principiam antes do fim do primeiro minuto.

"Maxwell´s Silver Hammer" é uma canção típica de Paul Mccartney. Um tema simples (um menino de coro que mata gente com marteladas na cabeça) envolto em complexos e precisamente executados arranjos. Não sendo um ponto alto do albúm, não deixará de arrancar alguns sorrisos.

"Oh Darling!" mostra-nos o outro Mccartney, romântico, arrojado, intenso e puro na expressão dos seus receios e angústias. O melhor que alguma vez se viu cantar a este senhor.

A vez de Ringo brilhar surge com "Octopus´s Garden", uma música aparentemente infatil mas de grande sensibilidade rítmica (ou não fosse ele baterista) e harmónica. Harrison faz uma pequena contribuição no solo de guitarra.

"I Want You (She´s So Heavy)" é, discutivelmente, o "Oh Darling!" de John. Concorde-se ou não, fica mais que patente aqui a sua natureza mais dark, o estilo muito mais introspectivo e o conforto em sair da norma. Ao sermos levados pelo tom hipnótico da guitarra, damos de caras com a sua obsessão prolongada e cíclica (por mais de 7 minutos), num discurso repetido até se tornar ébrio e desesperado, num clímax de loucura apenas interrompido abruptamente pelo final da lado A. Brilhante.

O lado B começa em completa oposição à loucura e freneticidade do primeiro. O doce "Here Comes The Sun" é como um tónico de optimismo e alegria. Começa delicado, em D e prossegue vibrante, apoiado brilhantemente pelas vozes de John e Paul. Juntamente com a posterior "I Can See Clearly Now" de Johnny Nash, esta é daquelas que nunca falhará em nos iluminar um dia mais sombrio.

"Because" é uma pérola de harmonia e produção. Força da sua letra hipnotizante e da brilhantemente executada harmonia vocal, desperta-nos fortes sensações e é das que mais claramente nos consegue fazer viajar. A última nota principia o Medley.

O Medley, que prossegue até ao final do albúm, é um conjunto ininterrupto dos mais variados géneros musicais, todos melodicamente interligados por uma ponte lógica. Começa-se com "You Never Give Me Your Money", uma delícia de Paul Mccartney, plena de variedade e virtuosidade. O lamento começa somente acompanhado de piano mas prossegue usando uma grande variedade rítmica e estilística. A provocante linha "1,2,3,4,5,6,7, all good children go to heaven" não me admira nada que tenha sido influência directa de John.

"Sun King" segue a mesma linha hipnótica de "Because", agora menos orientada para a voz e mais para suaves combinações de baixo e guitarra e sintetizador. A letra, para além das palavras básicas do refrão, figura um balbuciar aleatório de várias palavras em Francês, Espanhol, Italiano e Português.

John Lennon prossegue com duas caracterizações sociais, "Mean Mr.Mustard" e "Polythene Pam", ambas agressivas e vivas. Esta última transporta-se brilhantemente para "She Came In Through the Bathroom Window", escrita por Paul precisamente sobre uma fã que lhe entrou em casa pela janela da casa de banho. Outra prova do talento de Paul como compositor total, usando sonoridades diversas, cada uma com papéis de destaque ao longo ou em determinadas partes da música.

"Golden Slumbers" mostra-nos o seu lado mais clássico e a intensidade que muitos alegaram não ter. Vocalmente e orquestralmente uma das suas mais poderosas composições, apesar de letra original não ser de sua autoria. "Carry That Weight" é uma forma de trazer a melodia de "You Never Give Me Your Money" e complementá-la, sujeitando-a ao comentário mordaz do coro.

E assim chegamos literal e figuradamente ao fim. "The End", uma verdadeira música de despedida, ainda que os próprios não tivessem consciente noção disso. Ringo faz um portentoso solo, ele que os odiava e todos os restantes membros têm expressão singular nas guitarras que tocam, quase que como um jam num concerto ao vivo. É um último showdown conjunto destes 4 grandes artistas que, com a última linha, descrevem bem o que foi a sua carreira, a sua mensagem, e tudo aquilo que significaram para uma geração.

Para além de ser um dos melhores albuns jamais criado e a sua obra mais coesa e bem estruturada, somente ultrapassada, talvez, pelo revolucionário Sgt.Peppers, Abbey Road constitui o glorioso fim da estrada que, adequadamente, é um verdadeiro ponto final na década que transformou o mundo para sempre.

12/02/2008

Música

Eu tenho este problema grave. Esse problema é, decerto, partilhado com um sem número de pessoas. O problema de que vos falo é tão somente a necessidade urgente de partilhar experiências, de partilhar beleza com quem a compreende.

O caso da música é particularmente flagrante. Como pessoa ingénua que sou, acho ser possível que alguém tenha os mesmos sentimentos que eu ao ouvir, por exemplo, a Space Oddity. Essa visão, um pouco distorcida é certo, fez-me mudar completamente a temática (se é que tinha uma) do blog, passando agora, quase exclusivamente, a falar de música.

Considerando a música uma arte pura, e desconsiderando muita da sua dimensão tendencial, julgo que ela deve estimular as pessoas de forma individual, e não sob um qualquer padrão visual imposto pelos mass media.

Julgo eu, também, na minha inocência, que não há estilo ou corrente musical natural (que não seja pré fabricada num escritório) que deva ser desprezada quanto ao seu valor artístico. Podemos, sem dúvida, gostar ou não gostar, mas excluí-la por força da incompreensão não tem sentido.

É nesta dicotomia gostar/respeitar que me vou situar nesta próxima fase. Espero também estimular a vossa compreensão e interpretação dos temas, e apelo à vossa participação nesse sentido.

Albuns que goste, admire ou respeite (talvez outros, numa fase mais avançada deste projecto), vão ser aqui caracterizados segundo o que eu julgo relevante. Não é uma crítica, porque não me julgo com competência para tais aventuras, mas antes uma opinião, uma visão sobre eles. Dentro desta caracterização estará, sem dúvida e quando necessária, uma contextualização histórica.

O objectivo último, é então despertar curiosidades e abrir mentes à grande variedade que habita esta tão bela arte.

Em princípio, e confiando na minha dedicação, estará aqui caracterizado um album por semana, começando... hoje.

28/12/2007

A Lily e a Direita.

Há musicas que nos marcam bastante, seja pela sua relevância num certo período da vida, seja pela sua qualidade.

Depois de entrar em contacto com uma das melhores bandas de sempre, os The Who, houve uma música (entre algumas) de que gostei especialmente, e que me ficou no ouvido.

Esta música chama-se "Pictures of Lily".

Ora como acontece com muitas músicas, não percebemos bem o seu significado até as ouvirmos vezes sem conta.

Quando a comecei a perceber, descobri que fala tão somente em esgalhar o pessegueiro, pintar azulejo, espancar o macaco... sim, falava em masturbação. O sujeito não consegue dormir à noite, fala com o pai, o pai dá-lhe uns posters de uma gaja nua para ele colar nas paredes do quarto, e ele passa a dormir mais descansado. É esta a base da história.

Óbvio que, a partir dessa iluminação, se tornou AINDA MAIS favorita, dado que só mesmo génios para fazerem uma tão boa música à volta de um assunto tão constrangedor mas ao mesmo tempo, tão universal como este.

De músicas boas está o mundo cheio, mas esta é particularmente brilhante, tanto pela riqueza musical como pela inocência poética. Ouçam-na. Aposto que gostavam dela automaticamente se não tivessem lido isto primeiro.

No último post fiz prestei homenagem a um senhor chamado Keith Moon. É ele à bateria desta grande banda.

25/12/2007

To Moon, the Loon.

Um dos melhores bateristas de sempre, de uma das melhores bandas de sempre.
Sempre único, para o melhor e para o pior.
Símbolo de uma geração, de uma época e de um modo de vida.
Que a sua autenticidade seja recordada, e que a sua lenda permaneça viva.

There are more stories about Keith Moon and his antics onstage and off than about anyone else in rock music.

And the amazing thing is... most of them are true.


Bom Natal Keith.

24/12/2007

Agracia-mos.

O Natal é uma bonita época. Pessoalmente gosto por dois motivos essenciais, está frio e a lareira está acesa. Também porque posso extorquir o progenitor com maior eloquência, visto que o espírito natalício é a desculpa perfeita para qualquer coisa relativamente barata que me passe pela cabeça.

Estranho, que a maioria das pessoas que desprezam a sua natureza consumista, que mais se focam na sua eminência capitalista e suja sejam as mais sensíveis à reciprocidade natalícia. Esta é tão somente aquela mania "à la Mafiosi" de retribuir, seja o que for, com uma prenda. Mais que o consumismo, é isto que me preocupa.

Eu quero é que se lixem aqueles que dizem que as pessoas são atraídas para esquemas de marketing que, no Natal, as levam à falência. Partindo do princípio que somos todos humanóides, acho que o cérebro tem funções (escondidas!) que permitem evitar essas situações. Só se lixa quem quer, e se não querem cair na ratoeira, deixem de ser ratos.

Preocupa-me muito mais todo o enquadramento do ritual de dar e receber prendas. Deixámos de dar porque gostamos. Passámos, muitos de nós, a dar porque "temos de", porque entrámos num ciclo estúpido de "se tu me dás, eu dou-te igual", começámos a avaliar as prendas recebidas pelo seu valor monetário e não pelo simbólico, deixámos de nos identificar com a ideia de bondade e mais com a de aproveitamento ganancioso e, imagine-se, ofendemo-nos com prendas baratas sem nos ofendermos com a sua ausência.

Amigo meu não o é pela oferenda de um par de meias. Amigo meu não o é por me ter pago um almoço. Se eu, na condição de amigo, faço um favor ou um serviço a outra pessoa, não espero que ela me dê nada no Natal, porque se der, com essa intenção (o que é perfeitamente perceptível) está-me a pagar por algo que eu quero dar, e consequentemente a ofender-me. Aí, com toda a educação, manda-lo-ei enfiar os Mon Chérie na peida.

Claro que, no contexto hipócrito-empresarial, fica sempre bem uma garrafinha de Scotch. O favor material é excelente lubrificante de qualquer relação de negócios e nesse contexto, defendo a lembrança natalícia. Agora, no contexto do grupo de amizades ou, mais flagrantemente, do familiar, acho que as mesquinhices que o Natal gera em muitos, a febre da obrigatoriedade de dar, a necessidade de agraciar para ser agraciado são dos padrões de comportamento mais estupidificantes que existem.

Trata-se de um comportamento desviante e falso, que em nada promove a espontaneidade e a verdadeira amizade, os verdadeiros valores humanos de ... quais eram mesmo?

Aliás, é isso e eu ter recebido um After Shave de uma pessoa que nunca vi na vida. Já sei onde o usar! Obrigado amigo! No próximo Natal eu retribuo!

21/12/2007

Não Travem!

Eu gosto de inventar teorias, e gosto de as aplicar para meu próprio proveito. Como todo o bom teórico, desafio quotidianamente as minhas teorias, testando a sua aplicação prática.

Esta é contextualizada com a minha condição de utente das Estradas de Portugal, nas quais frequentemente me deparo com níveis patogénicos de estupidez, parolice e acefalia às quais tento não ligar. Há no entanto uma que me toca num ponto do meu subconsciente que me faz querer-me atirar contra um rail. As pessoas que travam por tudo e por nada.


Sim, eu concordo com as campanhas de sensibilização contra a velocidade na estrada, mas daí a concordar que a velocidade mata, não. A estupidez sim, mata. Essa é uma verdade tão adquirida como um vegetariano ser uma pessoa eminentemente desinteressante e obtusa. O pedal da direita não é nenhuma tentação malévola do Demo! Ele deve ser usado e bem, o problema é que 90% das pessoas que andam na estrada parecem bipolares, ora acelerando que nem doidos, ora travando perigosamente. E é aqui, senhores, que reside o problema maior do nosso tráfego.

O que eu peço é simples: Não travem! Com tanta gente a berrar contra os altíssimos preços da gasolina, não travar é uma alternativa perfeitamente viável a comprar um Prius (que equivale a cometer um suicídio longo e penoso com uma faca da fruta). Se não se travar, não se tem de acelerar de novo para readquirir a velocidade desejada e isto aplica-se a tantas circunstâncias do vosso circuito diário que ficarão parvos com o quanto pouparão.

Senão vejam-se algumas consequências deste comportamento:
  • Há filas intermináveis, que causam stress.
  • O stress causa que as pessoas acelerem à toa e travem à toa...
  • ... causando ainda mais acidentes.
  • ... e ainda fazendo com que as pessoas fumem mais, aumentando a incidência de cancro do pulmão.
  • É por causa destas pessoas que se gasta ainda mais CO2 do que o necessário.
  • ... Matando ursos polares e outros bichos fofinhos.
etc etc etc..

NÃO TRAVEM! Tornar-se-ão melhores pessoas, matarão menos Pandas e já não terão a necessidade de comprar um carro híbrido feito de plástico reciclado de um Playmobil ou de andar de transportes encostado ao senhor com icterícia.

Sejam comedidos na vossa condução quotidiana. Metam um autocolante fluorescente no pedal do meio a dizer "Use with Moderation". Pouparão gasolina, anos de vida, e obrigar-me-ão a ser menos ordinário quando eu próprio tiver de travar atrás da traseira do vosso Hyundai.

05/10/2007

A Praxe Académica.

É sempre com um grande nojo e com um grande desprezo que eu ouço falar mal da mui nobre Praxe. É também com um enorme asco que vejo aqueles tristes papéis e flyers, daquelas tristes pessoas que não compreendem o que ela representa. Tal como em tudo, só quem esteve ou está na Praxe deveria falar dela, pois a quantidade de desinformação a circular pelos meios de comunicação social é grande, e, não raras vezes, influenciadora de mentes ignorantes.

O que sei eu sobre a Praxe? Sei aquilo que devo saber. Aquilo que me faz amá-la e respeitá-la, como veículo de experiência, de respeito, partilha e amizade.

Aqueles que apregoam que a hierarquia é estúpida, e que todos são iguais, não são mais do que renegados anti sistema, que se recusam a aceitar o funcionamento das sociedades humanas como elas são. Em tudo há hierarquia. Numa empresa ela é fundamental para o bom funcionamento dos processos, em casa há que respeitar os mais velhos, na escola os mais sapientes.
Compreender que, um dos objectivos da Praxe, é formatar as imberbes mentes daqueles que pensam que tudo sabem para que melhor se adaptem a uma realidade totalmente diferente é meio caminho andado para perceber o que ela realmente trata, e o motivo pela qual ela é respeitada.

Pela Praxe, e pelo respeito que se ganha aos colegas superiores, e pela irmandade que se forma no esforço e na dificuldade das provas, os caloiros surgem muito mais preparados para as agruras de uma vida que nunca será fácil.

Claro que há sempre aqueles que se servem da Praxe, e há sempre os que querem praxar com o objectivo de se vingarem do que passaram no ano anterior, mas é nossa missão, doutores da Praxe no geral, de clarificar as coisas, de fazer compreender que nós estamos ali por eles, pelos caloiros, e não por nós. É a eles que temos de servir, como professores de lições que nunca esquecerão, lições que levarão para o resto da vida académica e, esperemos, não só.

Óbvio que é também pela hierarquia que se evitam abusos, uma vez que a Praxe dura para toda a vida académica do estudante, ao contrário do que muitos possam pensar. A responsabilidade é dos hierarquicamente superiores, de zelar pelo seu bom funcionamento, para que não haja abusos passíveis de figurar em horário nobre de qualquer televisão, atirando todos, sem excepção, para o lado negro de uma opinião pública, ja por si, frágil.

Outra coisa que me parece que muitos falham em compreender, é que o traje académico não é um acessório de moda. Através dele todos os estudantes são iguais, eliminando-se barreiras socio-económicas, políticas e de raça. Envergando-o, somos todos irmãos. É esse o seu objectivo, fomentar a humildade, a cordialidade, a responsabilidade e a entreajuda. Poder-se-à argumentar que o seu preço é elevado para a carteira mais necessitada, mas então porque é que nalguns sítios toda a gente o usa e noutros não? Só não usa traje que não quer, quem não quer fazer o sacrifício de poupar os trocos por dia para o comprar. Mas talvez seja melhor assim... só deve usar o traje quem realmente o amar e respeitar.

Isto tudo por ontem estive numa festa com os meus antigos colegas da Faculdade de Ciências, e já tinha saudades daquela união, daquela força conjunta, daquele espírito de igualdade e amizade. É graças à Praxe que ele existe, e foi graças à sua Praxe que muito aprendi... Diz-se que não há amor como o primeiro, mas eu espero pagar em dedicação à minha casa, ao meu ISCTE, o que tive na FCUL em intensidade. E, na instituição que represento, espero que cada vez mais se compreenda a importância da Praxe, e o seu simbolismo como instrumento de integração, e não de aproveitamento ridículo por pessoas que, durante 4 dias, podem finalmente ser alguém. Mas enfim, isso é tema para outra oportunidade.

Dvra Praxis Sed Praxis.

E que para sempre perdure.

17/09/2007

iChange

Nunca gostei muito de generalizações. Apesar de o meu professor de Psicologia me ter ensinado que são formas fundamentais de arrumação de conteúdos no cérebro, e peças fuclrais no acesso a essa mesma informação, também aprendi os seus perigos. As generalizações nunca estão certas. Por muito que se acredite que todos os Americanos são gordos e burros, a verdade é que muitos deles não são. Por muito que se acredite que todos os coreanos comem cães, a verdade é que muitos não comem. A verdade é que eu criei no meu cérebro um utensílio que dissolve a generalização (geralmente chamam-lhe bom senso), que torna a minha imagem do mundo um pouco menos monocromática.

Outra coisa que me faz alguma espécie, é o que eu gosto de chamar o Complexo da Escada. Tal coisa não é mais que um sentimento automático de superioridade cada vez que subimos um degrau da vida, seja académico, laboral, amoroso, psicológico, real ou inventado. Um bom exemplo deste complexo é quando se entra no ensino superior. É inevitável sentirmo-nos sempre, e sem querer, superiores aos alunos do secundário, quer pela idade ou pela experiência que pensamos adquirida. Isto mesmo tendo em conta que não passávamos de meros alunos do secundário, há meses.

Confesso que sofro um pouco desse complexo, tal como sofro da generalização e, muitas vezes, dou por mim quer a disfrutá-los, quer a combatê-los.

Isto tudo porque comprei um Mac.

Pensava eu, que os utilizadores de Mac eram vegetarianos abstémios, nascidos em São Franscisco e que usavam camisas coloridas e mocassins. Pensava também que toda a hype em volta dos seus produtos não passava de isso mesmo, e que, no que a computadores diz respeito, estaria sempre muito melhor com um PC. Sempre vi um Macintosh como quem vê um prato exótico feito no Sri Lanka: Curioso, mas algo que nunca provaria.
O problema foi que algo mudou na minha percepção das coisas. Em vez de um uber computador para jogos, optei antes por um laptop, algo que me permitisse, primeiro trabalhar, e depois divertir-me. Um amigo comprou recentemente um Macbook e mostrou-me algumas das características, com a veemência de qualquer Steve Jobs numa apresentaçao keynote. Não fiquei imediatamente convencido, porque obviamente que estava demasiado ligado ao mundo dos PCs para fazer uma mudança tão brusca. Pensei eu que, o prato exótico seria radicalmente indigesto e que me tornaria num renegado informático. Foi aí que notei em algo tão básico, que despertou na minha básica natureza, um básico sentimento. O software é bonito...

Bonito e funcional. Pensei eu que finalmente poderia gostar de trabalhar e que poderia ser agradável passar tempo a olhar para um monitor. Se me perguntarem se prefiro ter um escritório com vista para o Central Park ou um com vista para a Brandoa, a resposta é óbvia, e creio que foi esse o click. Tudo é mais bonito num Mac. Desde o browsing, das aplicações mais básicas às mais complexas, dos menus às fontes, tudo é agradável, simples e intuitivo. Para além do mais, todas as coisas que julgava exclusivas da utilização do PC, na verdade não o são, podendo-se fazer exactamente as mesmas coisas, mas de forma mais agradável. Claro que tudo isto seria redundante se as coisas não funcionassem, o que não é o caso. Tudo acontece naturalmente, de forma fluida, sem grandes esperas. Todas as tarefas, básicas ou não, são fáceis de executar permitindo-nos concentrar no que realmente importa, o trabalho em si.

As virtudes são incontáveis e seria extenuante tentar enumerá-las, no entanto, e apesar de ser um utilizador por vezes ridiculamente exigente, confesso-me rendido, e ainda entusiasmado com este novo mundo. E se tiver de ser visto como um vegetariano que usa mocassins, então que seja. Na minha mente, estarei sempre um degrau acima de qualquer utilizador de PC.

14/08/2007

Vegetarianismos.

Tenho muitos amigos que não comem carne por princípio. Há pessoas que conduzem Hyundais, há outras que põem purificadores nos canos da água e há ainda outras que preferem vodka a gin e no entanto, só não vejo qualquer pingo de lógica naqueles que não apreciam entrecosto.

Percebo perfeitamente quem conduza Hyundais, são formas baratas de ir de A a Z. Percebo também, até certo ponto, quem põe purificadores de água dado que são as mesmas pessoas que usam protector solar de factor 250+ e só fazem sexo em lençóis lavados, e não tenho nada contra isso. Percebo também que haja pessoas a nascer sem a parte do cérebro que determina o bom gosto, e portanto prefiram vodka a gin.

Agora não percebo qual é o estado mental que leva alguém a deixar de comer carne. Qual é o substituto de uma boa entremeada? Tofu? Querem-me convencer que, o que parece um pedaço de caca com 400 anos é o substituto de um suculento bife, regado um bom e fino molho, acompanhado de um excelente arroz? Dizem também que é mais saudável, que a gordura presente em muita carne é responsável por doenças cardiovasculares e que as proteínas animais são (*bocejo*) menos saudáveis que as vegetais e (a minha parte favorita), que seguindo esta via, viveremos uma vida mais equilibrada e longa. Tudo isto é muito bonito, muito Bloco de Esquerda. O problema é quando vem envolto numa pretensa superioridade moral de quem não está a matar animais para satisfazer a sua gula, de quem, ao tornar-se vegetariano, está a contribuir para que vivamos num mundo melhor.

Isso irrita-me.
Se eu quiser viver mais, tiro o rabo da cadeira e vou fazer exercício, ou fazer qualquer coisa que me estimule o espírito, não preciso de abdicar de coisas que me fazem apreciar a vida. Dizem-me para não conduzir, que é perigoso e poluí, para não fumar (e aí concordo, fumar é um vício horrível), para não beber álcool, para não comer costeleta de porco porque pode ter hormonas, para não nadar em praias públicas porque podem estar poluídas, se uma criança cai num parque, culpa-se o designer do parque porque não era suposto a criança cair (hello? é uma criança, elas caem!). Credo! Toda uma panóplia de vegetarianismos que não fazem mais do que proteger-nos da alegria da viver! E há pessoas que acreditam mesmo nisto tudo, estando nós assim a criar uma geração de chatos, de gente aborrecida, mais preocupada em viver muito do que em viver bem.

Nos últimos anos temos chegado a esperanças médias de vida muito superiores às de outrora, e isso é engraçado, mas o que é demais é moléstia. Para que é que eu quero viver até aos 100 anos? Para chegar aos 80 e viver mais 20 anos sem poder fazer sexo, comer um bife e beber Martini? Não obrigado. E depois os problemas para a Segurança Social seriam enormes! Já imaginaram a quantidade de velhos a que se teria de pagar? O que eles deviam fazer era promover, em plena televisão pública, uma vida boémia, de sexo, drogas e rock´n roll. Assim as hipóteses de ruptura no sistema de pensões seria bem menor.

Eu não tenho nada contra vegetarianos, tal como não tenho nada contra Testemunhas de Jeová. Desde que não me tentem converter, estamos bem.

08/04/2007

O Neo-Pseudo-Salazarismo.

Foi sem surpresa que o mal afamado concurso "Os Grandes Portugueses" teve um final dramático. Foi também sem surpresa que os dois candidatos mais recentes foram aqueles que ocuparam os dois primeiros lugares.

Dadas as características destes dois candidatos, isto revela duas coisas.

Ainda existe, bem no âmago da sociedade portuguesa, uma grande cisão entre dois blocos antagónicos, nascida no pós 25 de Abril, que põe frente a frente forças revolucionárias de cariz socialista e forças conservadoras de direita. Este confronto arcaico é dolorosamente evidente na diferença de pontuação entre Salazar e Cunhal e os restantes candidatos, e a explicação é simples. A partir do momento em que um deles se revelou como forte candidato, os detractores da sua obra (e não necessariamente seus apoiantes) uniram-se em bloco para apoiar o candidato da outra "facção".


Não costumo apoiar Paulo Portas nas suas palavras ou acções, mas a constatação deste "picanço" televisivo foi particularmente pertinente no calor da discussão dos resultados.

Depois, e mais gravosamente, revela um completo desinteresse pelas REAIS grandes figuras da nossa história, e, consequentemente, pela cultura colectiva riquíssima que temos como povo. Não negligenciando a importância das duas figuras em questão, e especialmente da sua enorme relevância política no século XX, há que ter em atenção que somos um povo com quase 900 anos de existência e que, nesse portentoso intervalo de tempo, houve figuras BEM mais marcantes e influentes.
Muitos atribuirão este resultado a um protesto simbólico pelo estado das coisas, que, dizem alguns, estão pior do que no pré 25 de Abril. Eu atribuo, realmente, este resultado a uma das mais graves falhas do período pós revolucionário, a Educação. Como é possível que, 30 anos depois, ainda haja um povo com tão pouco discernimento, tamanha falta de inteligência e sensibilidade, e copiosa ignorância cultural que vá votar maioritariamente numa personalidade que remeteu o nosso país ao isolamento económico, cultural e social durante 40 anos. É uma acefalia colectiva digna dos mais relevantes anais sociológicos.

É que estamos a falar da pessoa que disse que : "Um povo culto é ingovernável.".

É portanto perfeitamente compreensível a fidelidade de tanta gente estúpida.

29/01/2007

O Síndrome das Mamas.

Porquê, oh porquê?!

Eis algo que me vem atormentando há bastante tempo, algo que nunca consegui compreender na totalidade e que, dada a natureza do problema, não me é permitido perguntar.

Porque é que uma rapariga com um bom par de mamas vê em outras que não conhece, e que têm bons atributos, uma adversária... uma rival mortal?

Isto é verídico. Uma rapariga cujas glândulas mamárias sejam mais preponderantes que o normal e tenha uma visão eminentemente narcisista de si própria tem uma tendência natural para a marcação de território. Não mija pelos cantos, não, mas assim que um indivíduo do sexo masculino, relacionado de alguma forma com a dita mamalhuda, faz um comentário acerca das formas de qualquer outra, esta imediatamente a ataca, seja insinuando-lhe defeitos de pormenor, seja questionando a sua moral ou até, nos casos mais extremos, comparando directamente os seus atributos aos da visada.

É curiosíssimo verificar que tal não acontece em relação à beleza facial, quiçá pela subjectividade de tal característica, tal como não acontece em relação ao rabo pois esse normalmente é classificado conforme a circunstância da discussão (a flexibilidade nos critérios de qualidade aqui é imensa) nem muito menos acontece em relação à altura, visto que, como toda a gente sabe, os dotes peitorais são, normalmente, proporcionais à medida vertical da mulher em questão.

O que me trás a uma excelente questão. Uma mulher alta com um gostoso par de mamas, que faz virar mais cabeças do que a mamalhuda comum (mamalhudis normalis), dá origem a uma raiva sobrenatural e a um mal-estar profundo nesta, que, rapidamente, ou manda uma boca qualquer para desmistificar os atributos da outra, ou usa um argumento falacioso para se colocar num pedestal.

Se estes fenómenos ocorrerem enquanto outras mulheres estão presentes, é mais fácil para a mamalhudis normalis especialmente se houver no seio do grupo, uma outra, com a qual poderá criar uma relação de cumplicidade, a chamada tetócumplicidade, que só serve quando precisamente se está a atacar outrém. Se não houver outro par de mamas do seu nível na redondeza das relações de amizade, ao marcar território aproveita para se demarcar das demais por força do pouco tecido adiposo que estas possam ter sobre o músculo peitoral.

Há que referir, com justiça, que nem toda a mamalhuda é assim. Normalmente estas têm sérios problemas de auto-estima, problemas que tentam resolver pondo vários homens a julgá-las por putas.

Reparem pois, no comportamento da consciência por detrás do próximo par de voluptuosas mamas com que se depararem, sob um olhar mais analítico, e observem este fenómeno qual David Attenborough no meio da selva. Pode ser que um dia haja um BBC Vida Selvagem sobre o assunto.

06/01/2007

Egocentrismo.

"do Lat. ego, eu + cêntro


s. m.,
tendência pessoal exagerada em considerar tudo sob o próprio ponto de vista e em fazer de si próprio o centro do universo;



subjectivismo. "

O ser humano está paranóico. O ser humano é egocêntrico a ponto de não ver para lá de si, a ponto de ser como um cão atrás da própria cauda. Vivemos hoje num tempo em que as pessoas têm medo da natureza, em que o natural passaram a ser muros de betão e chão de cimento e esse passou a ser verdadeiramente o nosso meio. Vivemos num tempo em que cada vez mais se mama forte no Xanax e no Prozac, em que cada vez mais alheamos a nossa atenção da nossa verdadeira essência e nos focamos apenas no que acontece entre os muros de betão e o chão de cimento.

Como descrito na definição de paranóia, a superioridade que o homem pensa que tem em relação ao meio fá-lo ser arrogante. A raça mais inteligente, diz-se, não consegue compreender que é tão somente uma variável do sistema. Animais irracionais conseguem compreender o equilíbrio natural, e agem com o intuito de o preservar. Onde é que nós perdemos essa noção básica?

Não estou a dizer, contudo, que temos de voltar à Idade Média, para levar com a peste e com a tísica, mas também discordo em absoluto das mãezinhas que criam flores de estufa que, passado uns anos espirram quando apanham um grão de pó. É um pouco como ir acampar... faz impressão dormir no chão rodeado de bichos? Bem, é assim que todos os outros animais vivem. O que somos nós a mais do que eles? Mais inteligentes? Não creio. Ao protegermo-nos cada vez mais estamos a alimentar o nosso ego e a nossa ilusão de superioridade.

Somos mais egoístas, talvez. As funções superiores do cérebro permitiram-nos conceptualizar que nós somos aquilo que fazemos e fazemos aquilo que somos. Errado. Nós somos o que somos, e que já éramos à milhares de anos. A evolução não nos mudou, mudou apenas as nossas perspectivas. Tão vida como um gafanhoto, tão vida como uma árvore. Só que não o percebemos. Vivemos na ilusão de que, destruindo o equilíbrio, estamos a provar a nossa superioridade quando, na verdade, só estamos a provar a nossa deficiência como variáveis do sistema.

E entretanto, vamos bebendo água purificada por uma máquina, indo ao médico por uma constipação, lavando as mãos depois de tocar uns nos outros, tudo em nome de uma civilização e de um progresso que, apesar de factual e brilhante do ponto de vista do conhecimento, falha na aplicação da mais básica das premissas, a de que somos somente pequenas insignificâncias, face à complexidade do que nos rodeia, do que devíamos verdadeiramente admirar.


21/12/2006

O Fim da Sic Comédia.

Foi um dia triste, aquele em que eu soube que a Sic Comédia ia acabar. Foi um dia triste, realmente. E é cada vez mais triste quando, automaticamente, mudo para a Sic Comédia, normalmente o 2º canal na ordem do meu zapping, e penso que daqui por dias nada disto já lá estará.

Foram bons tempos, excelentes noites, óptimas tardes a ver boa comédia. Foram bons momentos à frente de um canal que se tornou parte da minha vida, e decerto da de outros, e que era o refúgio de dias mais aborrecidos, mais tristes, mais melancólicos.

Seinfeld, Frasier, Tonight Show, Late Night, SNL (dos anos 90), Everybody Loves Raymond, Bernie Mac, Allo Allo, Benson ... tudo séries que começaram a fazer parte da minha vida, mesmo desconhecendo-as quase por completo. Exemplo mais flagrante do Allo Allo, cuja música me faz sempre lembrar com ternura a minha mais tenra infância, até longas noites a ver Conan O´Brien, tardes a ver os compactos...

Com muita tristeza me despeço, e um agradecimento fica. Obrigado por tudo, obrigado pelos sorrisos, pelas gargalhadas, pela boa disposição, pela simplicidade da fórmula.

Obrigado, e Adeus Sic Comédia.

17/12/2006

A Relação. Reflexão primeira.

Em toda a relação há ciúme. Quer na mais precoce, quer na mais madura. No entanto, o ciúme parece ser algo que, em circunstancias normais, toma um curso decrescente em intensidade ao longo do tempo.
Há quem tenha ciúmes de um animal de estimação querido do parceiro, há quem tenha ciúmes da saída em grupo onde figura uma colega boazuda e depois há aquelas irritantíssimas pessoas, rapazes e raparigas, que martirizam o parceiro sempre que o seu olhar se cruza com matéria humana do sexo oposto (caso sejam heterossexuais, obviamente).


Esta última temática é das que mais asco me dá. Na minha qualidade de homem devo dizer que se há coisa irritante é uma mulher que dá na cabeça do namorado porque ele reparou nas mamas da menina que está a servir à mesa, ou porque olhou para um cú perfeitamente delineado. Não há nada mais hipócrita do que isso. Irrita-me ainda mais o namorado que atura essas merdas. Irrita-me a sua fraqueza em ser manipulado psicologicamente pelos caprichos egomaníacos da namorada. Meninas, se os vossos namorados olham para gajas e comentam gajas com os amigos, isso significa apenas e só uma coisa : Eles têm uma pila, e tão preparados para a usar com vocês.

É tão mais hipócrita quando elas, umas com as outras, fazem comentários badalhocos sobre os tamanhos das pilas dos namorados e sobre a maneira como lhes chupam partes pudibundas. E depois, os paneleiros dos namorados, quando numa conversa saudável de homens, coram e baixam a cabeça quando um amigo mais ousado diz que a morena da mesa à esquerda tem uma mama de fora.

Nos namorados ainda toma uma dimensão mais ridícula. Homem que é homem, não faz fita, amua. Homem que é homem pensa que a namorada quer ir para a cama com cinco pretos assim que ela repara no bartender de carinha laroca. E depois amua, fazendo-lhe a vida negra durante 3 dias, exigindo 1001 palavras de amor.


Depois há a menos conhecida falta de ciúmes. É ela o principal criador de falta de auto-estima numa relação. Imaginem-se, rapazes, a dizer à vossa namorada : "Vou ver um filme pornográfico com a Ana Raquel." e vossa namorada responder : "Vai vai, bom filme! Trás-me o resto das pipocas". É de ficar a pensar se realmente ela gosta de nós. Há varias hipóteses explicativas para este fenómeno. Ou a pessoa é madura o suficiente para não ligar a infantilidades de pessoas que, propositadamente, tentam espicaçar a relação com ciúmes, ou então o ego é exacerbado ao ponto de não se conseguir imaginar o companheiro com mais alguém ou então, e o factor mais importante, a ignorância em relação à natureza humana, instável, imprevisível e sexualmente inflamável.
Uma atitude de total ausência de ciúmes pode ser a receita ideal para uma relação chata e monótona e, consequentemente ou não,para uma surpresa muito desagradável.

Em tudo há um equilíbrio, e estou-me aqui a referir a situações quase limite de parte a parte, pelo que nos entrefolhos haverá muito espaço criativo.

No geral, os ciúmes tão saudáveis. São eles que criam o ligeiro desiquilíbrio que depois de colmatado nos dá aquela sensação de conforto com a pessoa que gostamos. São os ciúmes que nos fazem aperceber do quanto não queremos perder outrém, é esse reality check que, quando não doentio, nos torna mais maduros e mais capazes de enfrentar adversidades da relação.

Podemos até dizer que os ciúmes são uma vacina, isto quando os namorados não são paneleiros e as namoradas não são escravas e guincham palavras desesperadas de amor sempre que temos ciúmes. Não. Quando aprendemos a lidar com eles, quando aprendemos a eliminá-los, crescemos um pouco e promovemos o auto-controlo.


Ou então estou completamente errado e toda a gente tem um par de cornos.

14/12/2006

Hipocrisia 2 - O Regresso.

Ainda sobre a francamente triste temática do mais recente videoclip de STK, sobre a qual tenho pensado bastante, e discutido com quem acho que devo, há uma ou duas ressalvas a serem feitas relativamente ao post anterior.


Não sou um profundo conhecedor da cultura Hip-Hop. A minha área de interesses é demasiado larga, demasiado espalhada pelo que nem sou conhecedor dessa nem de qualquer outra em particular. Isto pode ser justificação para muitos me dizerem, como disseram : "Não percebes tanto como isso, logo não fales". Está certo, mas se formos a ver as coisas por esse prisma então só pessoas altamente especializadas em determinado assunto (conceito demasiado vago) falariam de assuntos que diriam respeito à sua área. Mas enfim, não me quero alongar muito por aqui.

A questão é que tenho a plena sensação de que fui demasiado duro nas críticas feitas. Continuo a achar que não foi sensato, de forma alguma, o uso do nome dos Moonspell, ainda que com boa intenção, ainda que não tivesse qualquer intenção de os visar pessoalmente. Continuo a achar que o feedback gerado e a cobertura mediática não foram nada benéficos para a música Portuguesa... e o problema reside exactamente aí.

O problema reside nas pessoas, na sua percepção das coisas. Sam The Kid não é culpado se 95% dos seus fãs são tão doentiamente devotos e tão estupidamente expectantes por um sinal messiânico de pseudo revolução cultural que nem se dão ao trabalho de descodificar o que ele diz, e de perceber, no contexto de toda uma cultura, do que é que ele é feito. Sam The Kid não é também culpado pelo jornalismo sensacionalista e nojento que se faz no nosso país, que aproveitou imediatamente essa fraca interpretação das suas palavras para criar uma guerra de palavras entre Hip Hop e Metal.

Fernando Ribeiro respondeu mal a esta interpretação, respondeu com veemência,desconhecimento e ignorância pois para isso foi estimulado por uma interpretação falsa e uma provocação baixa. E o ciclo vicioso negativo engrossou-se.


Eu fui injusto, confesso, em tomar nas palavras dele meios para a venda a todo o custo e no seu videoclip MTV uma maneira de se auto publicitar à custa dos outros. Pelos vistos não estava exactamente certo mas o Hip-Hop com que nos deparamos todos os dias na televisão é tão nojento, tão falsamente refinado, tão vazio que não é difícil interpretar por aí.


Mas isso é uma conversa para outro dia.

11/12/2006

Hipocrisia?

Saiu há pouco tempo uma nova música de um rapper sobejamente conhecido pela nação hip-hop portuguesa, música essa que veio despertar ódios e paixões pelo seu conteúdo. O nome da pessoa é Sam The Kid, a música chama-se "Poetas de Karaoke" e já tem divulgação assegurada via You Tube e MTV.

Na dita música são criticadas todas as bandas Portuguesas que não cantem na língua mãe, crítica apoiada no videoclip por personalidades bem conhecidas do panorama musical Português, como Rui Veloso ou Zé Pedro. Houve no entanto, no meio de uma espatafúrdia "invasão" a uma rádio Portuguesa e de outras afirmações de personalidade tão comuns nos rappers, uma frase que chamou a atenção e que vou passar a transcrever :

" Querem ser os "Moonspell" querem novos altos horizontes mas aqui o Samuel é Madredeus ou Dulce pontes"



Aqui podem transparecer duas coisas :

1º Um egotismo prosaico que em nada lhe fica bem, ao comparar-se a Dulce Pontes ou aos Madredeus. Percebo que, no contexto faz sentido, mas não deixa de ser algo de extremamante irritante.

2º Insensatez. Ao falar dos Moonspell num clip que critica as novas bandas Portuguesas que cantam somente em inglês, Sam The Kid passa a mensagem de que TAMBÉM os Moonspell, talvez a banda Portuguesa com mais albuns vendidos no estrangeiro e cuja "fanbase" se encontra mais lá fora, são alvos da sua crítica.
Isto é seriamente discutível. Quando Sam diz "Querem ser os Moonspell", está a direccionar a sua crítica para as bandas que aparecem agora e que, à semelhança destes, cantam em inglês porque "está na moda". Mas é claro que a generalidade dos fãs de Sam The Kid não é exactamente inteligente nem está preocupada em interpretar correctamente as suas palavras, basta ver qual o canal onde as suas músicas são mais divulgadas.

Isto cria toda uma corrente contra bandas que muito têm dado à música em Portugal, bandas como os The Gift, David Fonseca, os próprios Moonspell, sendo que um dos, senão o melhor rapper Português, se está a servir, provavelmente sem querer, do descrédito de alguns para potenciar o seu próprio sucesso. Isto para alguém que apregoa querer mudar para melhor a música Portuguesa, soa-me definitivamente hipócrita.

Sam The Kid não é diferente dos vendidos de que fala, agora o provou. Ele é vendido da forma mais disfarçada possível, que é apontando o dedo não distinguindo aqueles que cantam em inglês para vender mais discos dos que, legitimamente, andam a fazer música de sucesso e a espalhar o bom nome de Portugal pelo mundo. Basta um clip bem produzido, com "Rui Velosos" e "Zé Pedros" à mistura para um pouco de credibilidade, ser inteligente o suficiente para prever algumas críticas no próprio videoclip e divulgá-lo em canais tão intelectualmente credíveis como a MTV.

É pena, pois é dos mais talentosos MC´s em Portugal, com uma capacidade verbal e imaginativa como poucos têm. É pena, pois apesar de concordar com ele em muito do que diz, meter algumas bandas que são mais do dobro do que ele algum dia vai ser em jogo para promover um disco e promover ainda a ideia de que é o cavaleiro andante da língua Portuguesa fê-lo descer muito na consideração de muitos, que até o levavam bem a sério, eu incluído. É pena, que se tenha aventurado para além do que devia, ridicularizando-se e criando rivalidades onde nunca o devia fazer.